Não é por acaso que nos últimos meses temos vindo a ouvir cada vez mais as palavras “Academia” e “jogadores jovens”. De certa forma, o Arsenal da era Emirates Stadium é associado à produção e aposta em jovens talentos. Com a construção do novo estádio, o clube teve de fazer muitos sacrifícios financeiros e as consequências disso notaram-se em coisas como as dolorosas vendas de jogadores chave (muitos deles a rivais) ou a falta de poder económico para competir com outros clubes no mercado. 

Com Arsène Wenger no leme, um treinador notoriamente conhecido por descobrir dos melhores talentos europeus e com a coragem em apostar neles, o Arsenal tinha o homem ideal para abraçar uma nova filosofia que colocava a aposta na juventude como um dos pilares da estratégia competitiva. 

Esta nova abordagem trouxe os seus frutos. O Arsenal tornou-se num clube muito atraente para jogadores jovens que viam ter possibilidades de chegar à primeira equipa e continuar o seu desenvolvimento numa das ligas mais competitivas do mundo. 

Com isto, podemos dizer que o Arsenal tem forjado uma forte relação com jovens talentos do futebol ao longo dos anos. E, para 2019/2020, essa aposta na juventude parece voltar a ter relevância uma vez que o clube vai olhar para a Academia na busca de soluções para alguns problemas.

No final da época passada, o Arsenal publicou uns vídeos no seu canal oficial onde os novos líderes, Raul Sanllehi e Vinai Venkatesham, mostravam um diagrama da sua visão para o clube, e como tencionavam progredir para tornar o Arsenal num clube competitivo e com capacidade de lutar pelos maiores troféus.

Nesse diagrama, podemos ver a Academia como uma entidade chave neste novo Arsenal pós Ivan Gazidis e Arsène Wenger.

No entanto, este foco na Academia não é algo que o antigo regime tenha negligenciado. Como foi referido atrás, Arsène Wenger sempre apostou em jovens jogadores, e o clube recentemente investiu forte em novas instalações de topo em Hale End, casa das equipas dos escalões mais jovens do Arsenal. E parece que na época de 2019/2020, o Arsenal vai começar a colher os frutos que plantou nessa renovada Academia.

Durante todo o verão, sempre que ouvimos algum dirigente ou treinador do Arsenal falar, parece que a qualidade dos jogadores jovens era sempre um tópico que valia a pena sublinhar. Tudo parece indicar que a aposta em jogadores da Academia vai ser uma realidade nesta época, e essa ideia foi notoriamente reforçada com a promoção de Freddie Ljungberg, treinador dos sub-23 que fez um bom trabalho na época passada, à equipa principal. 

E de facto essa aposta notou-se na pré-época. Embora não seja novidade que os jogadores mais promissores do clube façam parte da pré-época, vale a pena dizer que este ano houveram muitas caras jovens a brilhar. Uma delas, Bukayo Saka, referiu mesmo depois de um jogo que a presença de Ljungberg tem sido muito importante na equipa principal, uma vez que deixa os jogadores jovens mais à vontade, e que assim recebem instruções personalizadas a cada um. O próprio Unai Emery também saudou a proximidade com Ljungberg, referindo que por vezes o sueco informava-o sobre quais os jogadores capazes de desempenhar certas funções. Robbie Burton, por exemplo, foi um jogador bastante utilizado na pré-época, mas Emery admitiu que se não fosse pela recomendação de Ljungberg, não teria estado nos seus planos de pré-época.

Tudo isto leva-nos para a nova época, onde os jogadores jovens parecem ter um papel proeminente. Todos sabemos que o Arsenal não está onde quer estar, e o clube enfrenta vários problemas. Durante o verão, Vinai Venkatesham admitiu que neste momento o Arsenal é “um clube de Liga Europa com salários de Champions League”. E é precisamente aqui que o Arsenal espera encontrar as soluções na Academia.

Vários jogadores importantes da primeira equipa saíram, e espera-se que jogadores da Academia ocumpem os seus papéis. Estamos a falar de jogadores como Petr Cech ou Danny Welbeck, que não sendo propriamente titulares na época passada, foram jogadores importantes na equipa. 

Olhando para cada caso individualmente, podemos ver que o Arsenal colmatou as saídas de Petr Cech e David Ospina, dois jogadores internacionais que ganhavam salários que refletiam esse estatuto, com Emi Martínez e Matt Macey, que juntos, não devem ganhar nem um oitavo dos jogadores mencionados anteriormente. 

Danny Welbeck foi um jogador importante na primeira metade da época passada, mas que tem períodos de irregularidade, sofrendo quebras de forma (muitas vezes devido a lesões) e que estava a ganhar um apetecível salário que o seu estatuto de internacional inglês lhe conferia. Welbeck sai do plantel e para o seu lugar temos figuras como Reiss Nelson, Bukayo Saka, ou até Emile Smith-Rowe. Meninos que ganham “trocos” em termos salariais quando comparados com Welbeck. 

Depois temos jogadores como Joe Willock que parece ter potencial para fazer boa figura na equipa esta época, e de certa forma é um jogador nos moldes de Ramsey. Claro que o jovem inglês não é um substituto do galês, mas olhando para jogadores como Elneny, mais uma vez um internacional a ganhar uma quantia considerável, podemos ver como a aposta num jogador com futuro como Willock seria uma decisão sensata. 

Outros jogadores como Gabriel Martinelli ou Tyreece John-Jules também deverão ter oportunidades uma vez que se olharmos para a primeira equipa, não há assim tantas opções ofensivas para o banco.

Todos estes exemplos mostram como a aposta na Academia pode, de facto, dar frutos. Se as coisas correrem bem, e estes jogadores jovens conseguirem atingir o seu potencial, podem ser soluções para algumas lacunas que ficaram por preencher no plantel. A diferença é que antes esses lugares eram ocupados por jogadores internacionais que “comiam” uma boa parte do orçamento salarial do clube, e esta época esses mesmo lugares serão ocupados por jovens talentos que ganham um salário relativamente baixo. 

Essas poupanças salariais podem ser investidas em jogadores mais importantes do plantel, quer sejam contratações como Nicolas Pépé, ou em renovações de contrato para jogadores chave (fala-se, por exemplo, que Lacazette e Aubameyang poderão renovar em breve).

Tentando olhar para participação na Liga Europa com o copo meio cheio, esta pode vir a ser uma competição onde os jogadores jovens deverão acumular minutos e, juntando as primeiras eliminatórias nas taças, pode ser uma mais valia para o desenvolvimento do seu potencial.

Como argumento final para a aposta na Academia temos as vendas de jogadores formados no Arsenal neste verão. O mais recente, Alex Iwobi, foi um jogador muito útil para o clube, e que acaba de gerar muitos milhões ao Arsenal. Já outros como Xavier Amaechi, Krystian Bielik e Dominic Thompson são jogadores que podemos dizer que nunca chegaram sequer a pisar o relvado do Emirates jogando pela primeira equipa, mas mesmo assim geraram uma quantia considerável de dinheiro que o Arsenal poderá investir noutras áreas do plantel.

Com isto podemos ver como a estratégia de apostar na juventude é uma estratégia sensata para um clube como o Arsenal neste momento. Sem as receitas da Champions League, o clube tenta olhar para soluções internas com o objetivo de colmatar lacunas no plantel, de forma a preservar e investir os grandes milhões em jogadores titulares que façam a diferença. Ainda para mais, este verão tivemos o exemplo de que mesmo que os jogadores jovens não consigam uma carreira a longo prazo no Arsenal, podem vir a ser na mesma jogadores valiosos e uma fonte viável de rendimento. 

Para esta nova época, resta saber se jogadores como Martinelli, Nelson, Willock ou John-Jules estarão à altura daquilo que lhes vai ser pedido. É certo que não devemos esperar que os jogadores saídos da Academia tenham todos a relevância de um Cesc Fàbregas, mas ao observar a primeira jornada da Premier League, podemos dizer que estes jogadores jovens vão querer lutar por um lugar na primeira equipa do Arsenal.

Artigo de opinião de André Rodrigues.