Temas sensíveis e Arsenal soam cada vez mais a sinónimos e como não poderia deixar de ser proponho-me a abordar mais uma questão quente.

Apesar de desde muito cedo defender a posição de “Arteta In”, desta feita coloco-me em posição para questionar alguns aspetos das decisões do nosso técnico a par da board que tanto prezo, permitam-me a ironia. Falo então dos problemas do meio campo Gunner.

Há várias das épocas que a nossa atmosfera teme por questões relacionadas com o eixo defensivo. No entanto, é com alguma tristeza que apesar sentir ainda algumas dúvidas direcionadas para esse sector que temo ainda mais pelo eixo intermédio e no qual reconheço mais urgência.

A linha mais atrasada viu finalmente chegar alguma aposta real e de caracter mais interventivo para o presente e futuro da mesma. Chegam Gabriel Magalhães e William Saliba. Dois defesas centrais jovens que chegam ao Emirates com experiências de titularidade na Ligue 1, apesar de tenra idade. Juntam-se a Sokratis, David Luiz, Mustafi, Holding, Chambers, Pablo Mari (também contratado, mas que já se encontrava às ordens do técnico). A esse leque junta-se também Kieran Tierney que alinha na grande parte das vezes nessa posição. Contas feitas, nove nomes para três lugares no onze, não entrando em questões de possível mudança de sistema. Além disso, alinhando numa defesa a dois ou a três, é em ambos os cenários demasia. Sei também que alguns (muitos) serão para colocar, mas os salários pagos pelo Arsenal destacam-se como grande entrave às saídas, pois não encontrarão de certo interessados dispostos a pagar-lhes o mesmo e para ajudar na manutenção dessa posição por parte de potenciais colocações, o valor de mercado destes jogadores caiu consideravelmente.

Nas alas Bellerin e Cédric parecem fechar a direita. Não escondo também a minha desconfiança relativa a ambos. À esquerda Tierney também contará, assim como Saka que já se exibiu a bom nível. Fechamos com Kolasinac que surge em rumores de uma transferência fechada com o Leverkussen a rondar os 12 milhões de euros e que espero realmente que tenham fundamento verídico e que como em vários outros casos não fique pelas “águas de bacalhau”. Propositadamente no fim, Ainsley Maitland-Niles. O verdadeiro “tapa-buracos” e que conta à direita, esquerda e possivelmente noutros sectores. Realço que é um jogador que aprecio particularmente, pela regularidade e eficácia de resposta em várias posições, não precisando de grande brilhantismo. Alinha a isso a maior frieza e irreverência da marca dos onze metros e que já se mostrou importante na conquista de competições a eliminar e que no meio de todas as tempestades, depois de parar corações, faz com que possamos rir um pouco.

Fechado o eixo mais atrasado, é hora de olhar para o “motor”. Como em qualquer máquina é aqui que a questão aquece.

Lucas Torreira, Matteo Guendouzi, Granit Xhaka, Mohamed Elneny, Dani Ceballos, Mesut Özil e Joe Willock. Para quem estiver num universo mais distante não parece situação alarmante. Pelo contrário, eu pinto o mesmo a cores bem negras. Faço isto por observar questões internas impensáveis e por ver escassear as opções de qualidade, mas vamos por partes.

Mesut Ozil é um tema já demasiado batido por diversas razões. No que toca à sua qualidade nas quatro linhas já referi inúmeras vezes a minha opinião sobre o camisola 10 e mantenho a posição que pode ser dos jogadores mais desequilibradores na manobra ofensiva e que oferece uma visão e imprevisibilidade que nenhum outro poderá acrescentar. Não me abstenho ainda assim de várias outras questões extra nas quais lhe reconheço culpa pela situação em que se colocou. Com Arteta, no período “pré pandemia” foi chamado várias vezes à titularidade e fez reavivar memórias dos momentos que podia trazer ao nosso jogo. Uma vez mais, e sem causar estranheza, o mago alemão viu o seu percurso manchado por questões extra campo e colocou novamente o seu papel em jogo. Durante o período de pandemia foi um dos percussores na recusa de baixar o seu salário e o que é certo é que desde então não voltou a alinhar pelo Arsenal. Foi ao banco uma vez e de resto tem assistido aos jogos a partir de casa, longe até da bancada. A comunicação do clube e de Arteta relativa ao assunto não é clara e Özil vai servindo para publicidade e venda de camisolas. Não obstante, preocupante é perceber que um jogador afastado das opções é o mais bem pago do plantel. Propostas não surgiram, falaram-se em potenciais tentativas de rescisão contratual, mas o médio manteve a sua posição em querer cumprir todo o contrato, decisão nada estranha dados os valores auferidos.

Para não deixar arrefecer o ambiente jogo para a mesa uma carta de nome Torreira. Chegou ao Arsenal com uma grande expectativa em torno do mesmo. De qualidade reconhecida pela generalidade dos adeptos, a verdade é que o pequeno uruguaio nunca assumiu o papel e o estatuto esperados no onze. Surgiu a espaços com grande qualidade exibicional mas com o tempo viu esfumar-se a sua influência e as suas oportunidades. Durante todo o seu tempo em Londres foi falado como inadaptado, triste e com vontade de sair. Mais uma vez, certo é que com clareza nada foi comunicado e em volta de Lucas a maioria das discussões basearam-se em especulação. Com Mikel Arteta no comando passou a dispensável, tendo o técnico mesmo colocado em causa o que este poderia acrescentar à equipa publicamente. Uma manobra tanto ou nada inteligente que inevitavelmente baixa aquilo que será o valor do jogador no mercado. Interessados não faltaram, mas todos sem a capacidade de pagar a título definitivo aquilo que o Arsenal pedia. Acabou por ingressar o Atlético de Madrid por empréstimo com opção de compra. Falam-se em 12 milhões de euros pela cedência + 20 milhões de opção.

Rematando à finalização de temas quentes à volta de jogadores falemos de Guendouzi. Visto como um dos grandes projetos do clube e com uma margem de progressão enorme, eis mais um dos que mancha o seu caminho e põe em causa o seu futuro em Londres por questões não diretamente relacionadas com aquilo que é o jogo. É sem tirar nem pôr um caso disciplinar. Em causa está um jogo durante a pandemia, no qual se envolveu com Neal Maupay em trocas de palavras pouco amigáveis e chegou mesmo à expressão de violência física. O jovem francês não gostou da forma desnecessária como o avançado entrou sobre o guarda-redes Leno e num ato de “defesa” do colega de equipa teve um comportamento reprovável com direito a  ameaças, alusões a diferenças salariais e apertos de pescoço. Não escapou a castigo por parte da liga e Arteta também não ficou indiferente. Guendouzi foi castigado também internamente, passou a treinar-se à parte do grupo e entrou no lote de dispensáveis. Foi oferecido a vários clubes mas até ao momento sem sucesso.

Apesar de tudo compreendo também a possível posição de Arteta. Afastar do trabalho elementos não comprometidos e que não acrescentem aquilo que o treinador idealiza ao grupo, além do seu futebol. O grande problema é que, estando apenas Torreira colocado, serão ocupação de duas vagas inúteis no plantel não vendo as divergências resolvidas de uma forma ou outra.

Remeto então a reflexão para as opções restantes: Xhaka, Ceballos, Willock e Elneny. Preocupados agora?

Relativamente a Granit Xhaka recuso-me a tecer grandes comentários. Tudo o que de bom tem consegue estragar sem grande esforço. Elneny vem de empréstimo da liga turca, é tido como importante para o técnico e surge até em vários onzes iniciais mesmo contra grandes equipas. Não deixo contudo de achar que é dos valores mais baixos do nosso plantel e que não tem a qualidade exigida a um clube do top 4 da liga mais competitiva do mundo. Sobre Willock há também pouco a dizer. Vem da formação, é ainda jovem, mas não pode de todo ser opção direta à dupla titular sendo que fatores como castigos, lesões e carga física e de calendário podem potenciar a rotação. Ceballos, como já fiz em questões atrás descritas fica para o fim. É um excelente jogador, dos que mais pode acrescentar ao nosso jogo mas sinto que por vezes não tem a criatividade necessária para alimentar os homens da frente. Além disso, é um jogador emprestado pelo que não é directamente um ativo do clube. Conclusão? 3 potenciais opções e um emprestado. Peca por demasiado escasso.

Neste sentido o mais preocupante para mim é ter a opinião de que trocaria facilmente o trio de dispensados pelo quarteto restante e desportivamente não perderia nada. Pelo contrário, penso mesmo que seria bastante desnivelado no nível apresentado. De sete opções que poderiam dar garantias observamos um eixo central demasiado curto.

Findadas as reflexões somos obrigados a falar de mercado. E que comece de novo o sofrimento.

Durante semanas a fio dois nomes surgem como principais alvos. Thomas Partey e Houssem Aouar. Num universo paralelo e onde o Arsenal fosse diferente, após tomar decisões sobre quem dispensar, em manobras similares às dos rivais gastaria à volta de 100M€ nos dois e dava um upgrade gigantesco à qualidade do meio-campo. Mas falamos do Arsenal e não estamos nem próximos disso.

Relatos de toda a Europa falam de abordagens da nossa parte por Partey com diferentes valores, Guendouzi como moeda de troca e com os “colchoneros” completamente irredutíveis. A única hipótese colocada na mesa seria o pagamento da cláusula de rescisão do médio (50M). Em sentido inverso da parte de Simeone surge o interesse em Torreira e que era no mínimo o cenário perfeito. Ninguém sabe muito bem porquê o Arsenal não só não chega a acordo pelo seu alvo, como não consegue incluir Torreira no negócio e ainda disponibiliza o médio ex-Sampdoria por empréstimo, não forçando sequer uma obrigação de compra. Posições e atitudes completamente distintas e que beneficiam apenas uma das partes, mais uma vez não sendo a nossa.

Para fechar em beleza e porque já tem contornos no mínimo especiais chega a situação de Aouar. Fala-se há várias semanas da vontade do francês em juntar-se aos Gunners e a pressão para sair do clube, mas como não poderia deixar de ser, conseguir acordos sobre jogadores deste gabarito não é de todo o nosso forte. Várias propostas foram submetidas, mas longe dos valores que o Lyon deseja, que estão à volta de 50 milhões de euros com possíveis adições em objetivos.

Para finalizar o artigo, o que me parece é que será impossível o Arsenal não colocar ainda alguns jogadores até ao deadline day e que não chegue pelo menos um reforço para o centro do terreno que possa fazer o motor engrenar de outra forma. Vejo as possibilidades de negócio cada vez mais distantes mas atiro um presságio positivo sobre a chegada de um dos dois, colocando as minhas fichas em all-in sobre Houssem Aouar. Se tivesse de escolher seria sem sombra de dúvidas sobre o jovem francês que recairia.

Apesar do cenário nada favorável, aquilo que espero é na próxima Magazine estar a dar a mão à palmatória e a elogiar a board pelo esforço em chegar a negócios que acrescentem no imediato e que nos aproximem rapidamente da qualidade de outros planteis.

Todas estas questões não passam de uma opinião (im)parcial sobre aquilo que vou refletindo sobre atualidade do clube e não passam apenas disso.

Up The Arsenal!

Artigo de opinião de João Vieira / Outubro 2020