A relação do Arsenal com o mercado nunca foi uma questão fácil. Passado sensivelmente um mês do término da janela de verão é altura de avaliar alguns pontos nesse sentido. O mercado, num clube que apesar de ter um tão apreciado dono, funciona como auto-sustentável, será sempre um ponto de equilíbrio entre entradas e saídas. Aqui insiro gestão de plantel e orçamento, projecção de projeto e competência para dar resposta a todos os pesos colocados na balança, de forma a chegar a um “produto final” que permita dar upgrade nos recursos para atacar objetivos superiores. Assim, depois de no mês passado ter debruçado a escrita sobre a gestão de sectores, ausência ou não de qualidade nos mesmos e da importância da comunicação do clube em diversos assuntos quentes, desta feita volto a apontar em duplo sentido, adjetivando uma vez mais a análise de forma a atingir estrutura e plantel.

A verdade é que, sem sombra de dúvida, o leque de opções que Arteta tem disponível está mais forte. Chegaram Gabriel, Willian, Runarsson e Partey, o último já no deadline day. A par destes nomes foi garantida também a continuidade de Cedric e Mari. Ceballos viu o seu empréstimo alargado para mais uma época e Saliba juntou-se finalmente aos trabalhos com o grupo, ainda que este nos possa dar algum pano para mangas. Atendendo ao que são as três grandes novidades, o defesa central brasileiro pegou de estaca e ainda que sem dominar por completo a língua e numa fase bastante precoce da sua caminhada por terras de sua majestade levou já o prémio de Player of the Month de Setembro. A par desta adaptação rápida vai também aparecendo Partey com exibições de bom nível e já mereceu também um Man of the Match, nada mais nada menos que em Old Trafford. Willian também tinha iniciado a grande nível mas a sua produtividade foi caindo, assim como todo o panorama ofensivo da equipa. Ceballos era já da confiança do técnico pelo que vem na continuidade de algo já construído. Os nomes restantes estarão sem grande discussão ligados a uma maior profundidade de plantel, ainda que ache que esta é bastante curta.

Sendo assim, não sendo o cenário um desastre, acaba por ser uma abordagem bastante longínqua da que os nossos rivais diretos vão tendo. O maior problema está em chegar à perceção de que este cenário pode estar a ser agravado por falta de eficácia ou por incompetência interna.

Olhando para a Magazine anterior, dei alguns exemplos que vão de encontro ao objetivo da opinião que aqui exponho. Torreira acaba por sair numa sequência negocial no mínimo de carácter “bonzinho” e Guendouzi passa a ser à partida um caso perdido. O uruguaio pode vir ainda a render alguns milhões que possam cobrir o investimento, mas o jovem francês parte para o seu último ano de contrato e atendendo a todas as circunstâncias dificilmente quererá renovar o seu vínculo. Falamos então da perda de um jovem muito promissor que nos remete a dois tipos de análise. Incapacidade no tratamento de assuntos e problemas internos e comunicação no mínimo danosa. A tudo isto junta-se a vertente financeira. Mattéo Guendouzi tem um valor de mercado próximo dos 30 milhões de euros, valor que acaba por ser completamente indiferente ao Arsenal, visto que colocou o jogador numa situação que provavelmente o levará a outras paragens. Além disso, sabendo das intenções que o treinador detinha para o mesmo, a estrutura foi incapaz de conseguir um negócio minimamente aceitável ou de colocar o atleta em algum que pudesse beneficiar o clube em termos de acordo de valores. Trata-se de uma clara desvalorização e perda de um ativo, numa jogada de principiante.

Pior ainda é olhar para o plantel e perceber que há casos tanto ou mais gritantes. Quando digo que a profundidade do plantel é bastante curta, alimento-me do facto existirem no elenco jogadores completamente retirados do projeto, afastados inclusive de inscrições na liga e competições europeias e de alguns casos que não vão tão longe mas que registam tempo de jogo quase nulo. Não será preciso ser nenhum bruxo para estar já com alguns nomes em perspectiva.

Para rematar já para canto o caso mais absurdo, eu diria até do futebol europeu, eu arrumo já o assunto Özil. O internacional alemão representa nada mais nada menos que um gasto na ordem dos 20 milhões de euros anuais. Deixo até completamente de parte a discussão relativa a opiniões sobre integrar ou não a equipa. Falando apenas de factos, trata-se do jogador mais bem pago do plantel e que não integra sequer a lista de inscrições para o campeonato ou Liga Europa. A questão nunca seria de fácil resolução, é certo. Dificilmente o jogador quereria sair atendendo aos valores que aufere e provavelmente só em realidades como a chinesa ou similares acabaria por receber propostas do mesmo nível. Certo é também que internamente solução não foi encontrada. Arteta é várias vezes chamado a responder sobre o assunto, mas a minha opinião é que está muita verdade escondida de todos os gooners, pois não se trata apenas de uma escolha técnica como referi na edição do mês passado.

Na mesma sequência de “não inscrição” segue Sokratis. Não vai poder participar nas duas competições, mas também não viu o clube conseguir arranjar colocação para o mesmo durante toda a janela de transferências. Representa um gasto anual na ordem dos 5 milhões de euros e é como muitos outros uma verdadeira inutilidade remunerada. Parece uma piada, mas não é de todo. Viu o seu nome associado à Roma no deadline day mas como é já hábito a norte de Londres, nada se confirmou e o reforço dos italianos chegou de um rival nosso.

Ambos os atletas entraram já no seu último ano de contrato.

Para não deixar arrefecer os ânimos trago na algibeira também o nome de Kolasinac. É para falar de (mais) incompetência? Então vamos lá. Há muito tempo que se percebeu que o bósnio é mais um dos nomes a colocar na porta de saída. É extremamente intrigante perceber o impacto financeiro que a saída de um jogador banalíssimo poderia ter no clube. O negócio de chegada do lateral esquerdo não surpreenderá ninguém. Trata-se do famoso “free agent” que consigo acarreta sempre comissões, prémios e salários de patamares elevados. Aufere valores na ordem das 100 mil libras semanais, o que em euros nos levará para números acima dos 5 milhões anuais. Esteve a um passo de se transferir para o Bayer Leverkussen por 12M€, mas como não poderia deixar de ser o negócio caiu. Contas feitas aos dois anos de contrato restantes e ao valor que poderia ter entrado em caixa pela sua transacção, Kolasinac pode representar uma perda de sensivelmente de mais de 20 milhões de euros, sendo que o seu papel na equipa é quase nulo. Até ao momento regista apenas uma presença nas quatro linhas a contar para a Liga Europa. Durante a temporada deve alinhar em modelos de rotação nas posições de defesa central ou lateral e não passará daí. Além disso, pode vir a entrar em situações como as referidas acima, no que toca a anos de contrato. Os clubes inevitavelmente poderão querer pagar menos pela cessação de um contrato tão curto. Para juntar a isso poderá também surgir a vontade do jogador para o cumprimento do último ano e aposta em mais uma saída a custo zero, que lhe poderá trazer ainda mais benefícios. Mas não ficamos por aqui.

Skodran Mustafi. Tinha de ser, não é? Como referi já por variadas vezes vão faltando adjectivos para as prestações do internacional alemão e este não deixa que as más memórias enfraqueçam. Num passado bem recente registou mais um momento deprimente na partida com o Leicester, quando lançado do banco, episódio que nos fez pagar caro com uma derrota. Aufere também de valores na ordem dos 90 mil libras semanais e a utilidade deste está mais na perspectiva adversária. Foi associado durante muito tempo à Lazio como principal pretendente, mas mais uma vez nada feito. Ao exemplo de Özil e Sokratis está também no último ano de contrato.

Existe ainda a questão de Saliba, que depois de ter cumprido já um dos seus anos de contrato em empréstimo no clube no qual já alinhava, neste segundo vai vendo muita especulação à sua volta. Falaram-se de problemas pessoais, possibilidade de mais um ano a competir em França, um ano de rotação no Championship, entre outras. O que é certo é que o promissor central francês acabou por ficar ao comando de Mikel Arteta, não tendo sido no entanto inscrito nas competições europeias. Tem alinhado várias vezes pelos sub23 ao contrário daquilo que seria esperado, mas atendendo ao facto de que a questão é ainda muito prematura o melhor será mesmo aguardar, até perceber os planos para o jogador e que verdadeiro impacto este poderá vir a ter atendendo ao montante que o Arsenal pagou (30M€).

Portanto, três jogadores com salários chorudos a cumprir o seu último ano de contrato, rentabilização nula de valores investidos nos mesmos e perda de oportunidades fulcrais de negócio de um dos envolvidos, que pode rapidamente entrar no mesmo ciclo. Duas vagas completamente à parte dos planos e outras duas que quando entram neles registam episódios lamentáveis na maioria das vezes.

Importante é tentar perceber o que é que está a levar o clube a entrar neste ciclo vicioso.

São demasiados os gastos em jogadores que não acrescentariam de caras qualidade direta no onze, a par disso os salários oferecidos são um dos grandes entraves a este problema de colocação acima falado. Podem ser várias as razões para tal. Competitividade no mercado financeiro com outros clubes interessados, ausência da luta por competições importantes, ausência de assiduidade na Champions League, o precedente aberto pelos valores auferidos pelo plantel, entre outros. Percebe-se é que fazer um jogador ingressar no clube é sempre um processo difícil. Pelo menos tem sido até agora, algo que vejo mudar aos poucos com o projeto agora definido.

A má gestão de compras está a levar a estrutura a esta inevitabilidade quando toca a ver-se livre dos mesmos. Além disso penso que as ações pecam sempre por tardias. Como acima evidencio, o processo não será de todo fácil e se as soluções não estão a ser encontradas algo tem de mudar, mas outro dos problemas é perceber que não é por falta de tentativa. Várias são as alterações que vão sendo feitas e nos últimos anos já vimos, a título de exemplo, nomes como Ivan Gazidis ou até mesmo Raúl Sanllehi sair, procurando diferentes tipos de investida.

A minha sincera opinião é que casos mais urgentes como os escolhidos a dedo para apresentar, pelo menos do ponto de vista salarial já seria um alívio enorme se estes saíssem. Nenhum deles caminha para novo e todos apresentam poucos anos de contrato. Visto que o seu valor de mercado já é baixo e que com as situações que cada um tem no plantel só irá baixar ainda mais, inevitavelmente o Arsenal devia procurar encontrar colocações por valores que permitissem a alguns clubes de um nível mais baixo justificar o investimento. Ou seja, se o valor de transferência baixar, a folga para investimento salarial nos atletas será maior. O jogador acaba por poder procurar auferir números parecidos, o comprador acaba por ver a vida mais facilitada e o Arsenal além de ver algum dinheiro entrar ainda limpa consideravelmente a folha, ao invés de o fazer apenas depois de os perder a custo zero. Além disso a utilização e agentes e intermediários nestes negócios parece-me assumir também um papel fundamental, ainda que se devam usar em “tons” inferiores aos que Don Raul, propositadamente acima referido. Penso que essa opção e modelo não pode ser colocada completamente de parte uma vez que competimos num mercado que é movimentado dessa forma por toda a Europa.

Não obstante, uma das dificuldades estará obviamente na discussão e acordo de todos estes aspetos com a board e não me parece de todo que seja um processo fácil. Há muito tempo que se entende que o interesse dos donos do nosso clube aquando da sua aquisição é em nada similar ao de clubes como Manchester City ou Chelsea. São no fundo demasiados factores a contribuírem para constantes erros que implicam directamente uma maior demora na aproximação desportiva a outros patamares como os que merecemos.

Pouca inteligência de compra (até em negócios como os de Partey e envolvência de Torreira), orçamento salarial muito distante da proporção direta à qualidade desportiva dos jogadores, desvalorização clara de ativos através de modelos errados de comunicação e gestão de problemas internos, atuação demasiado tardia e ineficaz em demasiados casos, etc... Falei acima de equilíbrio entre entradas e saídas, gestão de plantel, orçamento e projeto. Parece-me que, não querendo ainda assim vir com a alegoria de que está tudo mal, muitos pormenores estarão a faltar e que quando conjugados nos estão a atirar para patamares mais baixos.

Importante será mesmo a projecção de projeto, assim como de plantel e objetivos. Perceber internamente quem representa clara mais valia a curto e longo prazo, que casos e contratos podem estar perto de atingir pontos de rotura como os descritos e agir com mais celeridade nos mesmos.

O que também me parece é que as mudanças mais recentes e o depósito de confiança em Arteta como modelo e homem forte no que toca a decisões em torno da equipa visa a procurar todos esses aspetos numa sinergia mais objetiva. O técnico parece estar confortável com isso e pelo menos aponta sempre à frontalidade quando fala de cada assunto.

Para finalizar, chegando a uma consideração final que era o verdadeiro objetivo, aquilo que quero realçar é que se pode fazer muito mais e que se hoje o cenário parece mais positivo, com outro tipo de competência e assertividade poderia estar ainda melhor. É bastante doloroso perceber que em jogadores alienados do projeto, na conjugação de vendas e poupança salarial facilmente atingiríamos uma lufada orçamental próxima ou superior a 100 milhões de euros, que nos permitiriam agir de outra forma. Provavelmente falhas em transferências como as de Aouar, por quem tanto rezei, seriam cada vez mais escassas e mesmo com a concretização de exemplos como este ainda teríamos a custo salarial da equipa consideravelmente mais baixo.

Mais poder de compra, consequente melhoria significativa do plantel e produção desportiva e poupança no gasto anual com a equipa.

É imperial que a exigência seja outra, que a competência seja posta em primeiro e que responsabilidades sejam atribuídas. O Arsenal foi sempre um gigante e merece que dentro dele se lute para que desportivamente este possa acompanhar o tamanho da sua massa e compensar a mesma em títulos.

Para isto, parece-me que uma reflexão sobre o trabalho que está a ser realizado internamente seja feita de forma muito crítica e clara. Que celebremente deixemos de ter inutilidades e incompetência estrutural e desportiva. Que rapidamente o Arsenal volte ao lugar que merece.

(Todos os valores acima referidos são “não oficiais” mas encontram-se dentro de um espectro comummente conhecido na atmosfera Gunner.)

E não se esqueçam,

“todas estas questões não passam de uma opinião (im)parcial sobre aquilo que vou refletindo relativamente à atualidade do clube e não passam apenas disso.”

Up The Arsenal!

Artigo de opinião de João Vieira / Novembro 2020